Não se irrite, busque a igualdade: pondo fim à misoginia na ciência

01/06/2026 13:34

Don’t get mad, get equal: putting an end to misogyny in science

 

“Melhores momentos”:

…pretendemos compartilhar nossas experiências comuns de misoginia — aqui definida como preconceito, intencional ou não, em relação às mulheres…

“Quando uma mulher fala em um ambiente profissional, ela anda na corda bamba. Ou ela mal é ouvida ou é considerada muito agressiva. Quando um homem diz praticamente a mesma coisa, as cabeças balançam a cabeça em agradecimento por sua bela ideia 

Muitos homens ficam felizes em apoiar e orientar uma mulher que está em uma posição júnior e menos poderosa. No entanto, em nossa experiência, a vontade de apoiar e advogar geralmente diminui para as mulheres à medida que atingem a paridade ou antiguidade, e não é substituída por uma relação de trabalho respeitosa entre iguais.

Perdemos a conta de quantas vezes fomos encorajados a “relaxar” por nossos colegas homens ao debater um ponto. Ser chamado de rude ou irracional tornou-se comum quando recusamos diretamente pedidos de trabalho injustos.

Em estabelecimentos científicos, onde a colegialidade é muitas vezes equiparada ao voluntariado voluntário e o mérito pode ser determinado por parâmetros intangíveis, mesmo a mais fraca percepção de ser difícil pode produzir efeitos negativos na carreira.

Tornou-se evidente para nós duas que nossa segurança profissional pode ser ameaçada por percepções de que somos excessivamente confiantes, difíceis, assertivas e antipáticas.

Além disso, observamos que as mulheres muitas vezes optam por não falar sobre essas questões por medo de prejudicar suas carreiras.

Enquanto os padrões duplos enfrentados pelas mulheres são cada vez mais reconhecidos, o que é menos compreendido é como eles estão ligados a comportamentos coercitivos que ajudam a manter o bem-estar daqueles que detêm poder significativo.

Por exemplo, uma de nós ouve regularmente de colegas do sexo masculino que ela não tem conhecimento suficiente para tomar decisões importantes e centrais em seu trabalho. Isso acontece particularmente quando as decisões desafiam a convenção.

Em um artigo de 2022 sobre sexismo nas escolas de negócios do Reino Unido, a pesquisadora organizacional Michaela Edwards e seus colegas denominaram esse comportamento de “MICROCOERÇÃO”. Um conceito semelhante a microagressões, a palavra transmite como o assédio sutil e diário leva lentamente a um padrão de controle sobre os comportamentos, cargas de trabalho e realizações das mulheres na academia.

No século XXI, não devemos mais tolerar a ideia de que comportamentos considerados normais para os homens são problemáticos para as mulheres. Quer seja inconsciente ou deliberado, o conselho sobre como devemos nos comportar está enraizado na estimativa de que nós, como mulheres líderes, não temos a capacidade de determinar como agir por nós mesmas.

É fundamental destacar esse fenômeno mais amplo como uma forma de GASLIGHTING – esforços para desequilibrar psicologicamente uma pessoa para ganhar poder e controle sobre ela.

Também devemos condenar as formas institucionais de gaslighting, como quando as mulheres são instruídas a buscar treinamento de liderança ou aconselhamento em resposta a conflitos diretos com colegas misóginos.

Traduzido de https://www.nature.com/articles/d41586-023-02101-x

A tirania do “artigo sexy” – o novo Qualis

01/06/2026 13:23

https://aterraeredonda.com.br/a-tirania-do-artigo-sexy-o-novo-qualis/

Por CRISTIAN ARÃO

Ao condicionar a avaliação acadêmica a métricas de popularidade digital, o novo Qualis submete a ciência à lógica mercantil e aprofunda as desigualdades na pesquisa nacional

Em países de língua inglesa, é comum empregar o adjetivo “sexy” para se referir a coisas, e não apenas a pessoas. Computadores, automóveis e até mesmo ideias podem ser qualificados como “sexy” quando considerados atraentes ou interessantes. É nesse sentido que artigos acadêmicos também podem ser “sexy”.

Em Dominados pelos números, o matemático David Sumpter argumenta que, nos últimos anos, os pesquisadores têm se sentido pressionados a tornar seus artigos sexy para ganhar relevância em suas áreas.[i] Isso ocorre porque, na era dos algoritmos, as publicações acadêmicas em periódicos on-line são ranqueadas com base no número de acessos e citações, e para maior acesso e citação, o texto precisa ser atraente.

Segundo David Sumpter, a busca por visibilidade tem gerado um verdadeiro concurso de popularidade, no qual se gastam tempo e energia para moldar os artigos de modo a torná-los mais acessíveis e citáveis. Além do tempo e da energia despendidos, é lícito supor que haja uma redução do rigor acadêmico, uma vez que estratégias para atrair a atenção – como frases de efeito, afirmações provocativas e o uso excessivo de metáforas – podem comprometer a acurácia dos argumentos apresentados.

No Brasil, o processo de classificação de artigos da Qualis passou recentemente por uma mudança na qual indicadores bibliométricos, como número de citações e downloads, servirão de base para o ranqueamento das produções acadêmicas. Ou seja, textos mais lidos e mais citados serão classificados nas melhores posições.

A intenção declarada é tornar a avaliação mais justa, valorizando o mérito intrínseco da pesquisa em vez do prestígio prévio do veículo de publicação. No entanto, ao ancorar a qualidade da produção científica justamente em métricas de visibilidade e citação, a nova política pode acentuar as desigualdades que já marcam o sistema acadêmico, além de possivelmente comprometer a qualidade dos artigos. Em vez de uma ciência mais plural e democrática, corremos o risco de aprofundar um regime de concentração de prestígio que, na era das plataformas digitais, se torna ainda mais perverso.

 

O “efeito Mateus” e a lógica da concentração

A distribuição de citações na ciência nunca foi simétrica. Há décadas, a bibliometria demonstra que publicações e referências obedecem a uma “lei da potência”, em que poucos artigos e periódicos concentram a maior parte da atenção. O estudo clássico de Seglen publicado no artigo Why the impact factor of journals should not be used for evaluating research (Por que o fator de impacto das revistas científicas não deve ser usado para avaliar a pesquisa) mostrou que apenas 15% dos periódicos concentravam 50% das citações.[ii] Na prática, isso significa que a imensa maioria dos artigos publicados é muito pouco citada, ou jamais recebe uma única citação.

Esse fenômeno, conhecido como “efeito Mateus” (em referência à passagem bíblica “ao que tem, mais será dado”), descreve um processo de vantagem cumulativa: artigos e pesquisadores já reconhecidos tendem a ser ainda mais reconhecidos, enquanto os que partem de uma posição de menor visibilidade encontram barreiras cada vez maiores para furar a bolha.[iii] Trata-se de uma dinâmica em que o rico fica mais rico, e o pobre, mais pobre.

Na era digital, esse mecanismo de concentração ganhou novos aliados: os algoritmos de recomendação que alimentam plataformas como Google Scholar, Web of Science e outros indexadores. Essas ferramentas, essenciais para a navegação no oceano de artigos disponíveis, operam por um princípio chamado “estigmergia”: as escolhas coletivas dos usuários deixam rastros digitais que orientam as recomendações futuras. O caminho mais trilhado se torna o caminho sugerido.

O resultado é um ciclo vicioso de visibilidade. Os sistemas ranqueiam artigos com base em sua popularidade prévia, e as sugestões automáticas de leitura e citação alimentam-se justamente dos trabalhos mais citados. Cria-se, assim, o “efeito Mateus digital”: artigos altamente citados são recomendados com mais frequência, recebem ainda mais citações e tornam-se ainda mais dominantes, enquanto trabalhos valiosos de pesquisadores menos conhecidos ou de regiões periféricas são empurrados para a obscuridade. A “meritocracia algorítmica” revela-se, assim, uma máquina de reprodução de prestígio.

Ademais, o problema não é apenas quantitativo. O conhecimento produzido no Sul Global, em línguas além do inglês, é desproporcionalmente prejudicado por sistemas que foram treinados para valorizar o que é escrito em língua inglesa.[iv] Por esse motivo, ainda que o documento da Capes mencione “valorização de periódicos nacionais” como uma das diretrizes, ao apoiar-se nos dados bibliométricos, está indo na direção contrária.

 

A tirania do “artigo sexy”

Nesse ambiente de hipercompetição por atenção, a pressão para ser visto e citado produz uma terceira consequência nefasta: a transformação da produção científica em uma vitrine de artigos “sexy”. A expressão, que circula cada vez mais nos debates sobre produtivismo acadêmico, designa a tendência de tornar as pesquisas chamativas, sensacionais e atraentes, moldando temas, títulos e conclusões para gerar impacto midiático em vez de densidade científica.

Revistas de alto impacto como a Nature, a Cell e a Science, no afã de manter seu fator de impacto, favorecem a publicação de papers provocativos, mesmo que sejam negligentes, porque eles geram ondas de citação e asseguram vendas de assinaturas.[v] “Existe uma ideia de que você precisa vender seu trabalho e vender seu lado sexy”, resume Michael Eisen, professor da Universidade da Califórnia.[vi] Os pesquisadores internalizam essa lógica e passam a seguir temas da moda, a inflar a linguagem, a exagerar implicações e, no limite, a forjar resultados. A ciência, que deveria ser movida pela busca paciente da verdade, é capturada pela lógica do espetáculo.

É por esse motivo que a reformulação do Qualis se revela preocupante. Ao incluir, como critério oficial de avaliação, indicadores bibliométricos, a Capes não está apenas modernizando sua metodologia; está legitimando e aprofundando a lógica da mercantilização da ciência. A preocupação central do pesquisador deixa de ser a relevância social ou a originalidade teórica de sua investigação e passa a ser a capacidade de inflar métricas.

Disso não decorre, porém, uma defesa do caráter hermético da produção científica. Textos acessíveis, provocativos e até mesmo com títulos que tenham o intuito de chamar a atenção não são em si um problema. O que pode comprometer o trabalho acadêmico é quando o esforço para tornar o texto atraente se sobrepõe ao cuidado em produzir um artigo de qualidade.

 

Por uma política científica que combata as desigualdades

A nova política de Qualis da Capes não é problemática por acidente; ela é a expressão, na esfera da política científica, de uma racionalidade mais ampla que submete a produção de conhecimento aos imperativos da quantificação e da visibilidade. Em vez de corrigir as distorções do modelo anterior, ela as aprofunda, ao recompensar justamente aquilo que já é recompensado pelo mercado da atenção: o já conhecido, o já citado, o sexy.

Em um país como o Brasil, marcado por abissais desigualdades regionais, raciais e de gênero, uma política de avaliação que entrega a definição de “qualidade” aos algoritmos de plataformas globais não é neutra, é um vetor de exclusão. Os pesquisadores mais citados continuarão a ser mais citados; os programas de pós-graduação já consolidados nos grandes centros urbanos do Sul e do Sudeste do país continuarão a concentrar recursos e prestígio; e a ciência brasileira como um todo continuará sem cultivar sua diversidade e sua originalidade.

É urgente abrir um debate público sobre os rumos da avaliação acadêmica no país. Precisamos de políticas que valorizem a relevância social do conhecimento, a diversidade das formas de produção acadêmica e o fortalecimento de todas as regiões e instituições, e não de sistemas que, sob o discurso da eficiência e da modernização, reproduzem privilégios.

*Cristian Arão é professor de filosofia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Autor do livro IA entre Fantasmas e Monstros (Kotter Editorial). [https://amzn.to/3Rze9b0]

Com polêmica em Florianópolis, riscos da presença de cães nas praias vira estudo da UFSC

30/05/2026 10:24

Os impactos da presença de cães nas praias viraram tema de pesquisa da Pós-Graduação em Agroecossistemas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Conforme o estudo, há riscos de saúde relacionados às questões sanitárias, além de danos à flora e à fauna local. Em Florianópolis, um projeto de lei (PL), que tramita na Câmara dos Vereadores, busca autorizar a presença dos animais nesses locais, desde que vacinados e devidamente acompanhados por seus tutores. O texto deve ser analisado pela Comissão de Saúde nesta quarta-feira (2).

A pesquisa, desenvolvida pela médica veterinária Carla Roberta Seára Willemann, faz análises dos riscos para a saúde humana, animal e ambiental, bem como de experiências de praias pet friendly pelo mundo. Ela também aponta medidas fundamentais para que se possa liberar a presença de cães de maneira segura, como investimento em saneamento básico e controle de animais errantes.

 

 

Homenagem da Assembleia Legislativa de Santa Catarina na Sessão Especial Mulheres na Ciência

28/11/2023 08:26

Em 30/10, uma Sessão Solene em homenagem às mulheres cientistas de Santa Catarina foi realizada na Assembleia Legislativa, por iniciativa da deputada estadual Luciane Carminatti. Dentre as 2 entidades e 69 mulheres homenageadas, a docente do CCA, Professora Maria José Hötzel, foi destacada pelo seu trabalho notável, presença marcante, representatividade e legado na produção científica em diversas áreas.

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