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Por CRISTIAN ARÃO
Ao condicionar a avaliação acadêmica a métricas de popularidade digital, o novo Qualis submete a ciência à lógica mercantil e aprofunda as desigualdades na pesquisa nacional
Em países de língua inglesa, é comum empregar o adjetivo “sexy” para se referir a coisas, e não apenas a pessoas. Computadores, automóveis e até mesmo ideias podem ser qualificados como “sexy” quando considerados atraentes ou interessantes. É nesse sentido que artigos acadêmicos também podem ser “sexy”.
Em Dominados pelos números, o matemático David Sumpter argumenta que, nos últimos anos, os pesquisadores têm se sentido pressionados a tornar seus artigos sexy para ganhar relevância em suas áreas.[i] Isso ocorre porque, na era dos algoritmos, as publicações acadêmicas em periódicos on-line são ranqueadas com base no número de acessos e citações, e para maior acesso e citação, o texto precisa ser atraente.
Segundo David Sumpter, a busca por visibilidade tem gerado um verdadeiro concurso de popularidade, no qual se gastam tempo e energia para moldar os artigos de modo a torná-los mais acessíveis e citáveis. Além do tempo e da energia despendidos, é lícito supor que haja uma redução do rigor acadêmico, uma vez que estratégias para atrair a atenção – como frases de efeito, afirmações provocativas e o uso excessivo de metáforas – podem comprometer a acurácia dos argumentos apresentados.
No Brasil, o processo de classificação de artigos da Qualis passou recentemente por uma mudança na qual indicadores bibliométricos, como número de citações e downloads, servirão de base para o ranqueamento das produções acadêmicas. Ou seja, textos mais lidos e mais citados serão classificados nas melhores posições.
A intenção declarada é tornar a avaliação mais justa, valorizando o mérito intrínseco da pesquisa em vez do prestígio prévio do veículo de publicação. No entanto, ao ancorar a qualidade da produção científica justamente em métricas de visibilidade e citação, a nova política pode acentuar as desigualdades que já marcam o sistema acadêmico, além de possivelmente comprometer a qualidade dos artigos. Em vez de uma ciência mais plural e democrática, corremos o risco de aprofundar um regime de concentração de prestígio que, na era das plataformas digitais, se torna ainda mais perverso.
O “efeito Mateus” e a lógica da concentração
A distribuição de citações na ciência nunca foi simétrica. Há décadas, a bibliometria demonstra que publicações e referências obedecem a uma “lei da potência”, em que poucos artigos e periódicos concentram a maior parte da atenção. O estudo clássico de Seglen publicado no artigo Why the impact factor of journals should not be used for evaluating research (Por que o fator de impacto das revistas científicas não deve ser usado para avaliar a pesquisa) mostrou que apenas 15% dos periódicos concentravam 50% das citações.[ii] Na prática, isso significa que a imensa maioria dos artigos publicados é muito pouco citada, ou jamais recebe uma única citação.
Esse fenômeno, conhecido como “efeito Mateus” (em referência à passagem bíblica “ao que tem, mais será dado”), descreve um processo de vantagem cumulativa: artigos e pesquisadores já reconhecidos tendem a ser ainda mais reconhecidos, enquanto os que partem de uma posição de menor visibilidade encontram barreiras cada vez maiores para furar a bolha.[iii] Trata-se de uma dinâmica em que o rico fica mais rico, e o pobre, mais pobre.
Na era digital, esse mecanismo de concentração ganhou novos aliados: os algoritmos de recomendação que alimentam plataformas como Google Scholar, Web of Science e outros indexadores. Essas ferramentas, essenciais para a navegação no oceano de artigos disponíveis, operam por um princípio chamado “estigmergia”: as escolhas coletivas dos usuários deixam rastros digitais que orientam as recomendações futuras. O caminho mais trilhado se torna o caminho sugerido.
O resultado é um ciclo vicioso de visibilidade. Os sistemas ranqueiam artigos com base em sua popularidade prévia, e as sugestões automáticas de leitura e citação alimentam-se justamente dos trabalhos mais citados. Cria-se, assim, o “efeito Mateus digital”: artigos altamente citados são recomendados com mais frequência, recebem ainda mais citações e tornam-se ainda mais dominantes, enquanto trabalhos valiosos de pesquisadores menos conhecidos ou de regiões periféricas são empurrados para a obscuridade. A “meritocracia algorítmica” revela-se, assim, uma máquina de reprodução de prestígio.
Ademais, o problema não é apenas quantitativo. O conhecimento produzido no Sul Global, em línguas além do inglês, é desproporcionalmente prejudicado por sistemas que foram treinados para valorizar o que é escrito em língua inglesa.[iv] Por esse motivo, ainda que o documento da Capes mencione “valorização de periódicos nacionais” como uma das diretrizes, ao apoiar-se nos dados bibliométricos, está indo na direção contrária.
A tirania do “artigo sexy”
Nesse ambiente de hipercompetição por atenção, a pressão para ser visto e citado produz uma terceira consequência nefasta: a transformação da produção científica em uma vitrine de artigos “sexy”. A expressão, que circula cada vez mais nos debates sobre produtivismo acadêmico, designa a tendência de tornar as pesquisas chamativas, sensacionais e atraentes, moldando temas, títulos e conclusões para gerar impacto midiático em vez de densidade científica.
Revistas de alto impacto como a Nature, a Cell e a Science, no afã de manter seu fator de impacto, favorecem a publicação de papers provocativos, mesmo que sejam negligentes, porque eles geram ondas de citação e asseguram vendas de assinaturas.[v] “Existe uma ideia de que você precisa vender seu trabalho e vender seu lado sexy”, resume Michael Eisen, professor da Universidade da Califórnia.[vi] Os pesquisadores internalizam essa lógica e passam a seguir temas da moda, a inflar a linguagem, a exagerar implicações e, no limite, a forjar resultados. A ciência, que deveria ser movida pela busca paciente da verdade, é capturada pela lógica do espetáculo.
É por esse motivo que a reformulação do Qualis se revela preocupante. Ao incluir, como critério oficial de avaliação, indicadores bibliométricos, a Capes não está apenas modernizando sua metodologia; está legitimando e aprofundando a lógica da mercantilização da ciência. A preocupação central do pesquisador deixa de ser a relevância social ou a originalidade teórica de sua investigação e passa a ser a capacidade de inflar métricas.
Disso não decorre, porém, uma defesa do caráter hermético da produção científica. Textos acessíveis, provocativos e até mesmo com títulos que tenham o intuito de chamar a atenção não são em si um problema. O que pode comprometer o trabalho acadêmico é quando o esforço para tornar o texto atraente se sobrepõe ao cuidado em produzir um artigo de qualidade.
Por uma política científica que combata as desigualdades
A nova política de Qualis da Capes não é problemática por acidente; ela é a expressão, na esfera da política científica, de uma racionalidade mais ampla que submete a produção de conhecimento aos imperativos da quantificação e da visibilidade. Em vez de corrigir as distorções do modelo anterior, ela as aprofunda, ao recompensar justamente aquilo que já é recompensado pelo mercado da atenção: o já conhecido, o já citado, o sexy.
Em um país como o Brasil, marcado por abissais desigualdades regionais, raciais e de gênero, uma política de avaliação que entrega a definição de “qualidade” aos algoritmos de plataformas globais não é neutra, é um vetor de exclusão. Os pesquisadores mais citados continuarão a ser mais citados; os programas de pós-graduação já consolidados nos grandes centros urbanos do Sul e do Sudeste do país continuarão a concentrar recursos e prestígio; e a ciência brasileira como um todo continuará sem cultivar sua diversidade e sua originalidade.
É urgente abrir um debate público sobre os rumos da avaliação acadêmica no país. Precisamos de políticas que valorizem a relevância social do conhecimento, a diversidade das formas de produção acadêmica e o fortalecimento de todas as regiões e instituições, e não de sistemas que, sob o discurso da eficiência e da modernização, reproduzem privilégios.
*Cristian Arão é professor de filosofia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Autor do livro IA entre Fantasmas e Monstros (Kotter Editorial). [https://amzn.to/3Rze9b0]